A CASA ANDARILHA
Tânia Cristina Vargas Canabarro – UFES
Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena os livros me deram casa e comida. Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede; deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava num outro e fazia telhado. E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro. De casa em casa fui descobrindo o mundo...
(Lygia Bojunga Nunes)
Muitas são as casas e castelos que povoam o imaginário do ser desde a infância e cada uma dessas construções tem um significado especial para cada pessoa. Certamente, todas essas casinhas e castelos contribuem, de alguma forma, para criar um ideal de casa e, consequentemente, a própria personalidade vai sendo construída, juntamente com essa casa imaginária.
O rótulo Literatura Infanto-Juvenil denota uma certa limitação pela escolha de um público específico, separando-o do universo em que se inscrevem os demais receptores. Todavia, independentemente de ser escrito para um público especial, público este tão ou mais exigente que o adulto, o que se deve observar é se o texto é literário ou não. É a literariedade e o valor estético da obra que farão com que a mesma seja apreciada tanto por crianças quanto por adultos, como é o caso de A casa que andava, de Maria Helena Hees Alves.
Entretanto, a chamada “literariedade” e o “valor estético da obra” se complicam se pensarmos nos mecanismos de poder, em fatores variados e dinâmicos que influem na produção, circulação e recepção dessa obra. É preciso, pois, ressaltar a existência de fatores sociais, políticos, econômicos, ideológicos, que também influenciam a produção, idéia de valor e a formação dos cânones literários.
No texto de Maria Helena Hees Alves, é narrada a história de uma casa muito estranha que desperta o fascínio do leitor, envolvendo-o em encantamento e sedução. Texto extremamente sugestivo, permite pensar e sentir, aguçando a percepção do leitor em relação a algumas questões comentadas neste estudo e possibilitando uma ampliação de sua visão de mundo.
Para alcançar tal efeito, a criatividade e a sensibilidade do ilustrador Zeflávio Teixeira em sua compreensão do texto escrito foram de extrema importância, uma vez que a ilustração está em harmonia com o conteúdo da obra, formando um só objeto artístico. A qualidade dos desenhos reforça e valoriza a história. É como se um diálogo se estabelecesse entre o texto escrito e o texto imagístico, numa tentativa de sintonia e totalização entre a palavra e a imagem. A questão da ilustração é bastante significativa, principalmente nos textos atuais, pois a importância do visual na vida contemporânea é cada vez mais evidente.
As tonalidades de cores utilizadas pelo ilustrador, tons ora pastéis, ora mais vivos, dão suavidade ao desenho que pode ser considerado primoroso pela riqueza de detalhes e pela sutileza que apresenta. As cores predominantes no livro são os tons de marrom, claro-escuro, que indicam a terra/solo e planeta com suas coordenadas geográficas, conforme desenho que aparece na folha de rosto e é repetido no meio do livro de forma ampliada, o verde em suas gradações colore a mata, o campo e a montanha e, finalmente, o azul, com diferentes nuances, se faz presente no rio. Outras cores como o lilás, o roxo, o vermelho, o rosa e o branco são também utilizadas para realçar detalhes que compõem a paisagem como flores, animais, homenzinhos trabalhando ou simplesmente descansando. A idéia que se pode subtrair do resultado é: assim como o ser humano se integra à natureza, o texto literário se integra ao texto imagístico, formando um todo coerente.
O trabalho de diagramação, responsável pela harmonia e distribuição do texto nas páginas, é igualmente impecável. Não há quebra de paginação, a ilustração invade a página seguinte num contínuo, de forma que o desenho se completa na outra página. Também o texto é ajustado aos espaços sem prejudicar a ilustração. Vale ressaltar que essas escolhas não-verbais (seleção de cores, ilustração e diagramação) são elementos significativos para prender a atenção do leitor no ato da leitura, mantendo, assim, o mundo ficcional.
A casa representada no livro por intermédio da ilustração vai ao encontro do imaginário infantil, pois é realmente a casa que a maioria das crianças idealiza e desenha: uma casinha simples, com chaminé e fumacinha, indicando uma alegria natural que é própria da criança feliz.
Muitos são os significados do termo casa. Segundo Bachelard, a casa significa o ser interior. Há no livro A casa que andava uma forte identificação da casa com seu habitante. Vista de fora, a casa que aparece no livro tem fachada simples e agradável; aparentemente, não é uma casa nova, mas é bem cuidada e conservada. Pode-se considerar que a casa tem mesmo a cara de seu morador: um velhinho humilde, trabalhador, que vive sem luxo, em contato com a natureza, sempre alegre e bem disposto, cheio de vida, tal qual sua casinha. Na verdade, a casa representa o próprio eu do personagem narrador, devido ao grau de envolvimento que este mantém com sua casa. Não é por acaso que na ilustração da capa o velho traz a casa bem em cima de seu chapéu, ela está na sua cabeça, no seu cérebro, no seu corpo. Enfim, a casa é seu próprio ser.
Igualmente feliz é a caracterização do personagem narrador. Um tipo de aparência simpática, rechonchudo, de cabelo, bigode e sobrancelhas brancas, que nunca dispensa seu chapéu e que, ao pensar com seus botões, os mesmos, curiosamente, se transformam em seus próprios olhos. Um vovozinho porreta, como diriam as crianças. Um velho com espírito jovem e aventureiro que acompanha as andanças de sua casa com disposição e bom humor, ao invés de reclamar e se lamentar pelo fato de sua casa nunca estar no mesmo lugar quando ele retorna do trabalho. Assim, as características físicas do personagem e sua aparência parecem estar em sintonia não só com sua fala no texto, como também com o exterior da casa que nos é apresentado. Essa observação vai ao encontro da teoria psicanalítica exposta no dicionário de símbolos, segundo a qual o exterior da casa é a máscara ou a aparência do homem.[1]
Outro sentido igualmente marcante no texto é o de refúgio e proteção. Considerando que o velho é um personagem solitário, sem família, que mora sozinho em sua casa, pode-se comprovar no texto que a casa é para ele um porto seguro. Por isso, a volta do trabalho é um momento de grande expectativa por parte do personagem narrador, que espera encontrar sua casa singela, serena e também estranhae imprevisível. A casa é para ele um local aprazível e agradável, nela ele se sente naturalmente feliz e protegido como um filho nos braços da mãe. Também no dicionário de símbolos essa idéia é reafirmada: A casa é também um símbolo feminino, com o sentido de refúgio, de mãe, de proteção, de seio natural.[2]
Pode-se até pensar a obra A casa que andava como uma metáfora da própria literatura. A casa não se conforma em ficar num local único, não aceita sua condição estática. Por isso procura outros lugares, buscando sempre novidades. Não aceita permanecer no anonimato, quer surpreender sempre, deseja oferecer a seu dono uma paisagem nova, diferente, um lugar cada vez mais aprazível. Quer dar a seu dono a possibilidade de novas descobertas, deseja despertar-lhe o interesse, apontando-lhe novos caminhos. Exatamente como a literatura, a casa pretende ser sempre novidade que permanece novidade.
Assim, um texto literário de qualidade jamais perde seu encanto, pelo contrário, sempre traz revelações, renovando-se a cada leitura. Nesse sentido, não será nunca esgotado, pois também o leitor se torna outro quando relê um texto. Por isso, a boa leitura resiste à passagem do tempo, permitindo ao leitor o exercício lúdico de participar do jogo literário.
O fato de a casa estar sempre mudando de lugar remete o leitor às mudanças que acontecem em sua vida diária. O ser humano está, de alguma forma, constantemente exposto às modificações e transformações que podem ocorrer no seu cotidiano, independentemente de sua vontade. É preciso estar aberto a todo tipo de mudança para que seja capaz de enfrentar com mais tranqüilidade as prováveis dificuldades, a exemplo da atitude do personagem narrador, que demonstrou, no livro, bom senso e resignação ao aceitar a sorte que o destino lhe reservou.
Consciente da impossibilidade de remar contra a maré, o personagem narrador, sabiamente, permite que a brisa o leve, ou melhor, que a vida o leve. Com isso, fica estabelecida a associação da figura do velho à sabedoria.
Na verdade, o velho dessa história representa exatamente a própria espécie humana, o homem da contemporaneidade, um ser solitário e sem objetivos definidos, que anda ao léu, permitindo que a própria sorte o conduza. Marcado pela solidão, o personagem dessa história cria uma casa imaginária, uma casa companheira e amiga que lhe dá motivos para continuar vivendo. É com muito prazer que o velho da história vive essa aventura e ocupa seu tempo buscando a tão sonhada casinha que andava.
Assim termina a história contada pelo velho, no livro:
Solitário dessa nau peregrina.
Sem bússola, sem cartas, sem
porto onde chegar.
Marinheiro sem rumo, ando ao léu.
A brisa me leva.
Há nesse ponto uma mudança do foco narrativo, uma vez que o personagem narrador se cala e seu silêncio dá lugar a um novo discurso: o discurso da lenda, que tem como característica fundamental a oralidade, assim:
ali findou os seus dias. E que
a casa flutuante, depois que
ficou vazia, foi, pouco a
pouco, afundando até sumir de
uma vez. Mas à noite ela
aparece, janelas iluminadas,
deslizando sobre as águas...
Virou uma casa fantasma.
Esse desfecho retoma a abertura da história e o círculo se fecha. É como se toda a narração do velho, dono da casa que andava, fosse um parêntese dentro de uma outra história que é a própria lenda. Essa observação pode ser justificada a partir da abertura do livro, quando, na folha de rosto a história é introduzida ao leitor, localizando-o no tempo e no espaço da narrativa: Esta é uma história muito antiga. Veio de longe. Andou de boca em boca até chegar aqui, contada pelo dono da casa que andava.
A partir daí, a trama vai se desenrolando pela voz do personagem narrador num clima de interesse e expectativa em que os sentidos vão se construindo numa cadeia de múltiplos significados. E é na condição de objeto artístico que o texto literário provoca no receptor-leitor as mais variadas reações. A história de A casa que andava é, pois, narrada em primeira pessoa, exatamente pelo dono da casa, um velhinho que se vê diante de uma situação incomum: tinha uma casa que vivia mudando de lugar. Observa-se, ainda, que o tal velhinho parecia não dar grande importância a esse estranho fato, encarando as andanças de sua casa com disposição e bom humor. Segundo ele, não adiantava reclamar porque casa não sabe falar, não pensa, não raciocina e nem tem juízo formado.
Assim, ele foi seguindo sua casinha onde quer que ela fosse e não parecia ter problemas de adaptação nos novos lugares em que ela se instalava. Pelo contrário, ele procurava aproveitar ao máximo o novo local para fazer amizades ou, simplesmente, apreciar a paisagem. Afinal, como ele mesmo observou em diferentes momentos: Tinha bom gosto a casinha ou Que fino gosto, a casinha!
Na verdade, parece que o velho estava mesmo gostando de possuir uma casa andarilha tal era sua satisfação diante da descoberta, do novo, da surpresa que a casa lhe reservava. Por isso, ele estava sempre se perguntando, ou melhor, perguntando aos seus botões: Onde estará dessa vez? Por onde andará, dessa vez?
As indagações, geradas pelo não saber, são comuns tanto na velhice quanto na infância. Esses questionamentos funcionam como elos de ligação entre velho e criança. O velho, assim como a criança, busca respostas para o que ainda não sabe, por isso nessas duas faixas etárias, representativas do início e do fim da vida, ocorrem tantas perguntas, geradas muitas vezes pela curiosidade. A velhice é, de certa forma, um retorno à infância, o idoso, metaforicamente, volta a ser criança, passa a agir como criança, e, assim, o ciclo da vida se completa.
Acontece que essa história acabou de boca em boca ou até correndo mundo e começaram a aparecer os curiosos, os cientistas, tirando o sossego do dono da, então, famosa casa que andava. Acabaram por concluir os observadores que com a casa não havia nada de errado, mas como o velho... Esse velho está caduco, comentaram os cientistas.
Esse comentário a respeito do velho pode desencadear algumas reflexões sobre a velhice. Enquanto na cultura oriental o velho é sinônimo de sabedoria, como, por exemplo, na África, onde um provérbio afirma que quando um velho morre é uma biblioteca que se queima, em nossa sociedade, ao contrário, o velho é algumas vezes considerado um peso morto, um ser sem a menor utilidade, sem objetivo na vida, que vive à mercê da própria sorte.
O velho não só é discriminado pela sociedade como também pela própria família, terminando o idoso, muitas vezes, seus dias num asilo qualquer. Esse descaso com a velhice é sutilmente denunciado no livro A casa que andava, ao mesmo tempo em que a figura do velho é exaltada. Conforme já foi comentado, o velho no texto é um homem independente, ativo, trabalhador, bem humorado, de espírito aventureiro e cheio de vida como se jovem fosse.
O tempo foi passando até que um dia, como sempre, na volta do trabalho, o velho surpreendeu a casinha saindo do seu lugar, a passear. Surpresa maior ainda foi perceber, num outro dia, que a casinha era o barquinho com que ele tanto sonhara. Assim, nosso personagem narrador conta que viveu feliz em sua casa-barco, como um marinheiro sem rumo, sem se preocupar com o dia de amanhã e fazendo de sua vida uma eterna surpresa.
A partir do capítulo intitulado “A casa flutuante” do livro Aventuras de Huck (Huckleberry Finn), de Mark Twain, é possível estabelecer uma analogia com A casa que andava, de Maria Helena Hees Alves. A história de A casa flutuante se passa numa ilha, na qual Huck e seus amigos vivem uma emocionante aventura ao descobrirem uma caverna, situada no alto de uma colina, bem no meio da ilha. Foi assim que essa casa flutuante foi encontrada pelos meninos. Ela estava em parte submersa no rio, numa das extremidades da ilha. Era uma casa de madeira e tinha dois andares. Os meninos conseguiram aproximar-se da casa por canoa e lá chegando puderam, finalmente, examiná-la por dentro. Além de poucos móveis e alguns objetos, eles encontram um homem estendido no chão que parecia estar morto há alguns dias. Com medo, não olharam para a cara do homem. Então, resolveram levar para a canoa tudo que poderia ter alguma utilidade mais tarde e, assim, partiram em direção à ilha, certos de que tinham feito uma boa coleta.
Assim, “A casa flutuante”e A casa que andava parecem ter grande afinidade entre si. Essas casas não se encontram fixadas num local, ao contrário, elas se locomovem e ambas pela mesma via: o rio. Esse fato é bastante curioso se for considerado que uma das características da casa é a de estar sempre fixa num lugar. Porém, como se pode notar, nem todas as casas são iguais e essas casas tão especiais transgridem as regras gerais: são casas que se movem. A partir dessa coincidência entre as duas casas, a que andava e a que flutuava, o diálogo intertextual se estabelece. A palavra flutuante é também empregada no final do livro “A casa que andava” para qualificar a casa, reforçando ainda mais a intertextualidade como o capítulo do romance de Mark Twain.
Em que diferem essas casas, afinal? No caso da casa que andava, seu interior não é mencionado, o que não nos impede de imaginar como ela seria por dentro. Em contraposição, em “A casa flutuante”, temos uma descrição detalhada de seu interior, como a que se segue:
Tomamos a canoa e aproximamo-nos da casa flutuante. Entramos por uma das janelas. Dentro, vimos uma cama, uma mesa, duas cadeiras velhas e roupas penduradas na parede. Havia alguém estendido no chão, e parecia um homem.[3]
Nos dois textos, pode-se perceber o instinto aventureiro e rebelde dos personagens principais que, embora marcados pela diferença de idade, um já idoso e o outro bem mais jovem, identificam-se pela vontade de superar obstáculos e lutar pela vida. A diferença entre essas histórias se manifesta também nas perspectivas do velho e da criança ao narrarem suas incríveis aventuras.
Assim, ao comparar os dois textos, o leitor pode desfrutar do privilégio de ter acesso a pontos de vista distintos e, ao mesmo tempo, perceber que velho e criança têm muito em comum e que a vida é exatamente um círculo que vai do nascimento à morte, do novo ao velho, do começo ao fim, e quem sabe até o infinito.
Contém, certamente, esse texto, as características necessárias para ser considerado verdadeira literatura infanto-juvenil, podendo agradar não só à criança como também ao adulto, permitindo ao leitor experimentar diversas emoções, propiciando seu crescimento pessoal.
Além disso, A casa que andava é um texto que provoca no leitor um processo de reflexão que facilita a construção de uma consciência autônoma. E, a partir dessa autonomia, o leitor adquire capacidade de analisar a realidade que o cerca e buscar possíveis transformações.
Por meio desse texto, pode-se confirmar o relevante papel desempenhado pela casa na literatura e na vida das pessoas como o local da raiz, da acolhida, da identidade e do desejo, desde os tempos mais remotos até os nossos dias.
Referências Bibliográficas:
ALVES, Maria Helena Hess. A casa que andava. Ilustrações de Zeflávio Teixeira. São Paulo: Paulinas, 1996. (Coleção Lua Nova. Série Pererê: 2).
BACHELARD, Gaston. A poética do espaço. Tradução de Antonio de Pádua Danesi. 1ª. Edição. São Paulo: Martins Fontes, 1993. (Coleção Tópicos).
CIRLOT, Juan-Eduardo. Dicionário de símbolos. São Paulo: Moraes, 1984.
POUND, Ezra. Abc da literatura. São Paulo: Cultrix, [19--].
TWAIN, Mark. A casa flutuante. In: Aventuras de Huck (Huckleberry Finn). Rio de Janeiro: Edições de Ouro/Tecnoprint Ltda., 1969.